O começo de tudo
Segundo a mitologia inca, Cusco foi fundada por volta do ano 1200 d.C. por Ayer Manco, junto com sua irmã Mama Ocllo, que mais tarde se tornaria sua esposa. Ayer Manco teria sido enviado pelos deuses incas para levar ordem à região e ensinar um “novo caminho” aos povos locais, vistos como ameaçadores naquela narrativa.
Os deuses disseram a Manco que ele deveria se estabelecer no lugar onde seu bastão afundasse no chão. Isso aconteceu numa pequena área plana entre dois rios, o Huatanay e o Tullumayo, quando seu bastão dourado afundou na terra. Esse lugar passaria a ser conhecido como Q’osqo, ou Cusco na época colonial.
Brasileiros em Cusco hoje, e por que essa história importa
Para muitos brasileiros, Cusco começa como “a porta de entrada” para Machu Picchu. Mas entender a origem e o peso histórico da cidade muda totalmente a experiência. Você deixa de ver Cusco só como um ponto de passagem e passa a enxergar como uma antiga capital de império, com camadas de história em cada rua, pedra e igreja. É o tipo de contexto que transforma um passeio em uma viagem de verdade.
O poderoso Império Inca
Ayer Manco, que depois ficou conhecido como Manco Cápac, “ilustre”, foi o primeiro governante do Império Inca. Mas foi somente com o nono governante inca, Pachakuti, que o império começou a crescer rapidamente.
Q’osqo estava cercada por tribos guerreiras, muitas delas em conflito entre si. Pachakuti e seu filho Topa Inca foram grandes estrategistas e, ao longo dos 50 anos seguintes, construíram um império que se estendia ao norte até a região do atual Quito e ao sul até o rio Maule, ao sul de Santiago, no Chile. Cusco se tornou o centro espiritual e político de todo o Império Inca.
Um detalhe que costuma surpreender brasileiros:
Cusco era “o centro do mundo” inca
Brasileiros comparam Cusco com cidades históricas “imperdíveis” de outros países, mas para o mundo andino, Cusco era mais do que uma cidade importante. Era o coração político e simbólico de um império continental. E isso explica por que tantos lugares ao redor, como o Vale Sagrado, têm conexão direta com a capital. Você não está só visitando ruínas, está circulando pelo antigo eixo de poder dos Andes.
Cusco na época inca
No centro da cidade havia uma grande praça chamada Haukaypata. Dela partiam caminhos para os quatro “setores” do império, os quatro Suyos: Qollasuyu, Kuntisuyu, Antisuyu e Chinchaysuyu.
Segundo o livro Comentários Reais, escrito pelo cronista espanhol Garcilaso de la Vega, Cusco era um lugar impressionante, cheio de santuários, palácios e templos. Um dos edifícios mais importantes era o Templo do Sol, o Korikancha. O relato descreve um templo revestido por placas de ouro maciço e um jardim com plantas feitas de folhas de ouro, com caules de prata.
Estudos arqueológicos indicam que havia menos de 4.000 construções na área principal de Cusco, em sua maioria de um só andar. De acordo com a crença andina tradicional, Cusco era dividida em duas metades: a parte superior, chamada hanan Cusco, e a parte inferior, chamada hurin Cusco. A divisão era marcada pela praça Haukaypata e, na época inca, algumas linhagens familiares pertenciam a uma metade específica da cidade.
A chegada dos espanhóis em Cusco
Quando os espanhóis chegaram ao Peru em 1532, encontraram o Império Inca no fim de uma guerra civil de cinco anos. Os irmãos Huáscar e Atahualpa disputavam quem assumiria como imperador após a morte do pai, Huayna Cápac, que havia morrido sem nomear um herdeiro.
A disputa terminou quando Atahualpa, com apoio do poderoso exército inca, matou Huáscar e tomou o título de Sapa Inca. Os espanhóis sabiam que Atahualpa estava na cidade de Cajamarca, ao norte, e Francisco Pizarro o capturou com um grupo pequeno, de apenas 168 homens.
Para tentar salvar a própria vida, Atahualpa ofereceu as riquezas de Cusco como resgate. Pizarro enviou três generais a Cusco, que levaram o máximo de riqueza que conseguiram, deixando o restante trancado em um depósito para ser recolhido depois. Cusco finalmente caiu sob domínio espanhol em novembro de 1533.
Após ser batizado na fé católica e jurar lealdade à coroa espanhola, Atahualpa foi morto mais tarde, quando se suspeitou que ele estaria planejando derrubar os espanhóis. Sob controle espanhol, Cusco foi saqueada de forma sistemática, e muitos edifícios incas deram lugar a novas construções coloniais.
Cusco hoje
Quando você está na principal praça de Cusco, a Plaza de Armas, é difícil imaginar como era a Cusco inca. Muitos dos grandes edifícios descritos por cronistas antigos simplesmente não existem mais. A Plaza de Armas colonial fica parcialmente onde antes estava a grande praça inca Haukaypata, e igrejas e construções barrocas dominam as ruas do centro.
Ainda assim, alguns vestígios impressionantes do período inca seguem presentes na cidade, como o Templo do Sol, Korikancha, e o Palácio de Inka Roc’a, na rua Hatunrumiyoc.
Muitos visitantes internacionais não percebem o tamanho da história de Cusco e passam pela cidade apenas a caminho da famosa cidadela de Machu Picchu. Mas Cusco já foi uma das cidades mais poderosas do continente, o centro político e espiritual do Império Inca, uma cidade comparável em importância a Roma, Atenas ou Cairo.
